Associação de Apoio e
Informação a Cegos e Amblíopes

Testemunho da Fundadora

O meu nome é Teresa Vaz, tenho 43 anos, possuo baixa visão desde que nasci e uso lentes de contacto há trinta primaveras. Sinto cada vez mais dificuldades em suportá-las.

Os meus olhos estão cada vez mais fragilizados, com as cataratas mais desenvolvidas e a minha retina cada vez mais fraca (sabem o que isto significa?…). Tenho um diagnóstico a que não posso fugir e que me obriga a viver com ele, com a secreta esperança que esse dia fatidico nunca irá chegar.

Não pensem que me estou a lamentar. Apenas relato um pouco da minha história para que possam entender o que pretendo fazer, que afinal não é mais do que tentar tornar a vida das pessoas como eu, menos difícil, assim como ajudar as que tem uma vida ainda mais complicada, ou seja, aquelas que são completamente cegas. Sempre tive pavor dos médicos oftalmologistas. A minha infância foi passada em salas escuras, com senhoras de bata branca a colocarem pingos que me deixavam sempre a ver pior, assim como um grande desconforto nos olhos. Como se não bastasse, nada melhorava, voltando tudo ao mesmo. Por mais que aproximasse dos olhos os meus óculos, com as suas lentes grossas, nada adiantava; não via as letras nos quadros, nos livros, não podendo correr nem sair do espaço exíquo que dominava. Apesar de tudo não me podia separar dos meus óculos, nem mostrar os meus olhos verdes ou as minhas pestanas, reviradas pela proximidade das lentes, que faziam os meus olhos parecerem muito pequeninos. Aos 42 anos estava a precisar de superar este meu medo, porque senti que não conseguia ultrapassar as minhas dificuldades sozinha, tendo recorrido ao Hospital de Santa Maria para uma consulta da especialidade. O resultado foi ser encaminhada para as consultas de Subvisão, onde fui atendida por uma equipa especializada, que me soube informar da existência do Centro de Reabilitação da Nossa Senhora dos Anjos, o qual desempenhou um papel importante na recuperação da minha auto-estima. Conheci pessoas extraordinárias, com vivências bem diferentes da minha, e do mundo que tanto receava, mas onde acabei por me inserir. Depressa descobri que afinal havia vida para além da escuridão!...

Ter ido para o Centro foi para mim um acontecimento histórico. Encarar de frente o que não tinha solução e querendo aprender novas técnicas que facilitassem o meu dia-a-dia foi revolucionário e inovador para a minha reabilitação. O convívio com os utentes e a partilha de emoções e de afectos, foi a melhor terapia que me aconteceu, pois percebi que afinal ainda tinha alguma visão, e que em vez de ficar deprimida, podia canalizar as minhas energias para ajudar, que sendo algo que gosto muito de fazer, ao mesmo tempo permitia-me reconhecer e aceitar que tinha chegado o momento de também eu ser ajudada.

Rapidamente me apercebi que tinha o dever de fazer algo, quer por mim quer pelos outros. Com os utentes do Centro de Reabilitação e das Novas Oportunidades, verifiquei que havia uma enorme dificuldade em obter a informação desejada (tinha de fazer vários contactos para obter uma única resposta, nem sempre conseguindo a mais indicada). As pessoas mais idosas e aquelas que começavam a perder a visão, tinham dificuldade em assumir o facto, o que por vezes as levava a isolarem-se negligenciando os seus direitos. Foi no sentido de melhorar e contribuir para o seu bem-estar, que tive a ideia de criar uma linha telefónica de apoio e informação, que conseguisse dar as respostas necessárias a muitas questões.

A forma possível de tornar este projecto uma realidade foi através da constituição de uma Associação. Para a tornar viável, tive de sensibilizar as pessoas que me eram mais próximas e que poderiam partilhar comigo este meu desejo de tornar o Mundo um bocadinho melhor. É graças a todos esses que colaboram comigo, contribuindo com a sua ajuda preciosa, que estou cada vez mais empenhada em tornar este projecto possível, ainda que mesmo assim tenha plena consciência que não irá ser fácil. Mas acredito que com muita dedicação e a solidariedade de todos, nascerá uma Associação que terá como objectivo construir um conceito inovador de divulgação de informação, dedicada a pessoas com necessidades especiais.

Recordo um provérbio americano que tem estado presente na minha vida: «Não critiques aqueles que tentam e falham, critica sobretudo aqueles que nunca tentaram».

Ainda há muito por fazer e por isso lanço um apelo, não só às pessoas cegas e com baixa visão, mas a todos aqueles que através do voluntariado pretendam ajudar a associação a cumprir os seus objectivos: ajudem-nos, pois o vosso contributo, ainda que vos possa parecer reduzido, é na realidade muito importante, possibilitando chegarmos a um bem maior à medida que muitos outros se lhe juntarem.

Página actualizada em: 08-01-2013 21:36